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Lá em cima daquela serra,
passa boi, passa boiada,
passa gente ruim e boa,
passa minha namorada
— Epígrafe de Sagarana.
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Sagarana é um livro de contos publicado por
João Guimarães Rosa em
1946 e cuja primeira versão foi por ele inscrita no Concurso Humberto de Campos, da livraria José Olympio, sob o título de
Contos,
em 1938, e que assinou sob o pseudônimo de Viator. Essa publicação foi
premiada com o segundo lugar no concurso, perdendo para
Maria Perigosa, de Luís Jardim.
É a primeira publicação que não foi posteriormente renegada pelo
autor. Os textos exemplificam bem o estilo do autor, sua linguagem
inovadora e seus temas, atrelados à vida rural de
Minas Gerais.
O título
Sagarana é um
hibridismo:
"saga", radical de origem germânica que significa "canto heroico",
"lenda"; e "rana", palavra de origem tupi que significa "que exprime
semelhança ". Assim
Sagarana significa algo como "próximo a uma saga".
João Guimarães Rosa combina e recombina habilmente as informações do
meio, confundindo lugares e paisagens, mesclando o real, o imaginário e o
lendário em sua obra. Não é um livro regionalista já que não se limita a
uma localidade especifica.
Índice dos contos
O livro é composto pelos contos:
Carro de boi, com uma junta de bois a mais que no conto Conversa de Bois
- O Burrinho Pedrês
- A volta do marido pródigo
- Sarapalha
- Duelo
- Minha Gente
- São Marcos
- Corpo Fechado
- Conversa de Bois
- A hora e vez de Augusto Matraga
Originalmente, o livro possuía outros três contos:
- Questões de Família
- Uma História de Amor
- Bicho Mau
Características gerais da obra
Linguagem
Guimarães Rosa cria
neologismos em
Sagarana,
utilizando-se de palavras formadas por derivações sufixal, prefixal,
parassintética e também por abreviação, composição aglutinada e
composição justaposta. A obra é repleta de neologismos que se sobressaem
em composições e derivações novas, além “de novos tipos de construção
frasal”, ditos "neologismos sintáticos”, segundo Mattoso Câmara.
Algumas figuras de linguagem tais como:
metáforas,
anacoluto e
silepse
têm também grande destaque. Além disso, o autor faz uso de recursos
melopeicos, que são únicos em sua obra. Como disse Guimarães Rosa, “as
palavras têm canto e plumagem” (Borba, 1946), e, por isso mesmo, cada
uma delas leva a significados diversos, ainda que essa diversidade possa
ser muito sutil e só apreendida em um exercício de interpretação. Com
efeito, Guimarães apela para os aspectos auditivos (“canto”) e visuais
(“plumagem”), fazendo um verdadeiro arranjo sonoro com as palavras. Isso
se sobressai principalmente em
O Burrinho Pedrês e
São Marcos.
Fabulação
É outra característica de Guimarães Rosa que se sobressai em
Sagarana: o seu extraordinário poder de fabulação. Suas narrativas,
repletas de incidentes, casos fantásticos e imaginários, contém às vezes
mais de uma “história” dentro da “história”. É o que se pode notar,
principalmente, em
O Burrinho Pedrês.
De um modo geral, entretanto, esses casos secundários são postos em
função do principal: têm a finalidade de comprovar ou preparar terreno
para a história principal.
Espaço e personagens
Em carta a João Condé, Guimarães Rosa (2001, p. 25) revela que Sagarana se passaria no interior de
Minas Gerais, na paisagem das fazendas e vaqueiros
[1] — mundo da infância e juventude do autor.
As histórias são ligadas entre si pelo espaço em que acontecem, e
captam os aspectos sociais, físicos e psicológicos do homem interiorano.
Provérbios e quadras
É outra característica do estilo rosiano que evidencia um gosto bem popular: o gosto por
ditados e
provérbios,
além das quadrinhas que harmonizam as noites sertanejas, sob um céu
palpitante de luar e de estrelas que pululam encantadas dos sons
gotejantes das
melodias populares.
Narração
Anopheles o vetor da
malária, presente no conto Sarapalha
Os contos
O Burrinho Pedrês,
A Volta do Marido Pródigo,
Sarapalha,
Duelo,
Conversa de bois e
A hora e vez de Augusto Matraga são narrados em terceira pessoa.
A onisciência do
narrador
nos contos em terceira pessoa é relativizada, acentuando a dimensão
mítica, política e a alternância de focos narrativos no transcorrer do
texto.
Já nos contos
São Marcos,
Minha Gente e
Corpo Fechado
o narrador aparece em primeira pessoa, foco narrativo ilumina os passos
do protagonista, mas também revela certas sutilezas que servem para
esclarecer o sentido mais profundo da história.
Ver também
Referências
- ↑ Guimarães Rosa, João (2001), Sagarana, São Paulo: Nova Fronteira.